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segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Vida e morte.

Fui ali e não volto
Depois de alguns meses no hospital, seu fim era certo. A linha do coração que passava exatamente em frente aos seus olhos durante todo esse tempo o fazia recordar de que a vida não passava de geometria. Quis percorrer as mãos pelo seu corpo uma última vez, mas era incapaz pela falta de força e coragem de certificar de fato, que a doença lhe roubou tudo que podia. 
Sorriu ironicamente. 
Pensou nos desejos que sentiu até ali.
Todos.
Até mesmo os mórbidos que agora faziam parte do seu menu de vontades. Lembrou do amor e percebeu que nem o pior dos medicamentos tinha um gosto tão amargo. Lembrou-se do rosto doce de quem amou todos esses anos. Sentiu o arrependimento transformar o gosto ruim do amor em caramelo de criança. Toda aquela impotência de saber que lhe restariam apenas algumas horas, lhe deu a impulsão que lhe faltou todos esses anos. "Bem feito" gargalhou ao pensar que antes o pensamento privava o corpo e que jamais pensaria que o inverso seria possível. "Preso por cadarços" serrou os olhos à sinfonia do marca-passos. A mesma sensação o atormentava a vida toda, ter sua libido retalhada pelo achismo alheio e o desejo terminando de consumir o corpo. "Pra onde ele vai? Deve se espalhar como veneno pelo corpo, consome os rins, o fígado, estômago, pâncreas, pulmão até fulminar no coração. Desta vez, nem ao menos posso me contorcer." Excluiu o cérebro porque ele classifica a vida, mesmo estando tudo morto, é a "casa" dos seus pensamentos, possuía fortalezas demais para ser atingido. Queria uma chance de refazer tudo ou somente viver de novo os mesmos equívocos. "Morrer é fazer uma lista imaginária das verdades que eu não poderia dizer em voz alta, nem pra mim mesmo. É ser enfim, quem realmente sou." O corpo estava enrijecendo.
De amor.
De fim.
E de um tesão absurdo, comprimido ao longo de tantos anos. Quis se tocar uma última vez, mas como sempre, sofreu a rejeição de si mesmo.
O tempo virou uma ampulheta pequena, mensurado por uma areia que pela finura, corria muito mais rápido do que gostaria. A última coisa que lhe ocorreu foi o desenho frequente de altos e baixos da máquina cardíaca. 
Construiu em última instância uma analogia mental da sua própria vida até ali. E antes de ir, mesmo sem paz que lhe desejariam, concluiu "a vida não passa de oscilações".

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